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Infertilidade

Este trabalho baseia-se em minha recente experiência de atendimento a casos de infertilidade. Caracteriza-se a infertilidade quando um casal não engravida após dois anos de vida sexual regular, sem emprego de nenhum método contraceptivo. Em geral, mesmo antes deste prazo, um casal que deseja engravidar já começa a se preocupar com a questão e procura atendimento médico para verificação de possíveis problemas de ordem biológica que estejam impedindo a gestação. Se nenhum problema orgânico é identificado, ou se é identificado, tratado e solucionado e mesmo assim a gestação não ocorre, pode dar-se a procura de um psicólogo para ajudar o casal a enfrentar a situação, em geral vivida como muito dolorosa e frustrante. Esta procura pode dar-se, ou não, por encaminhamento médico. Mais frequentemente, nos casos que tenho atendido ou de que tenho conhecimento, a procura dá-se por iniciativa do cliente, que não deseja, em primeira instância, recorrer a procedimentos de reprodução assistida, solução mais frequentemente proposta pelos médicos.

Os casos atendidos têm apontado para a hipótese de que a gravidez não ocorre devido a tensões ligadas a representações do exercício dos papéis paterno e materno ou à história de vida dos clientes, que bloqueiam a espontaneidade, no nível corporal, impedindo a ocorrência da gravidez.

As tensões ligadas a representações dos papéis materno e paterno prendem-se à conserva cultural de nossa sociedade que coloca o papel materno de modo muito exigente, devendo a mãe ser sempre doadora, perfeita, santa, assexuada, amando todos os filhos da mesma maneira, com dedicação total, etc. É emblemático deste modelo o verso “ser mãe é padecer no paraíso”, do poema de Coelho Neto. O papel paterno também é idealizado, devendo o pai ser o provedor bem sucedido, que jamais deixe faltar nada à família, do ponto de vista material. Nestes casos, as técnicas de role-playing têm ajudado a quebrar os mitos do papel, deixando brotar a espontaneidade na criação de novos modelos e favorecendo a ocorrência da gravidez.

A conserva cultural da mãe sofredora reflete-se no modelo de parto da nossa cultura ocidental judáico-cristã, cujo livro sagrado, a Bíblia, traz o anátema: “Parirás teus filhos com dor”. O medo do parto e da dor no parto decorrem igualmente da repressão da sexualidade, que na nossa sociedade faz homens e mulheres chegarem à idade adulta desconhecendo sua anatomia e os fatos relativos à dinâmica do parto, que é cercado de fantasias aterradoras. O psicodrama, especialmente na sua vertente pedagógica, permite a elaboração destas fantasias terrorifícas e a construção de conhecimento libertador.

Dentre os casos ligados à história de vida individual, têm surgido tensões ligadas às relações com a família de origem, tanto com os pais, quanto com irmãos. Em um dos casos que podemos citar como exemplo, o marido sempre arranjava pretextos para brigas no período fértil da mulher, não mantendo relações sexuais. Na terapia, entrou em coníato com seu medo de ter um filho que tivesse leucemia, como fora o caso de um seu irmão falecido na infância.

Por vezes, a tensão se dá na relação do casal ou na relação do casal com as respectivas famílias de origem. O casal pode, no processo terapêutico, perceber que não deseja um filho, mas está apenas respondendo a pressões familiares para que se enquadrem no modelo de família nuclear de nossa sociedade ou que estão “querendo” o filho para provar masculinidade ou feminilidade.

São comuns também, tensões e culpas ligadas a abortos anteriormente provocados e a não ocorrência da gravidez vivida como castigo.

Em todos estes casos, o emprego do psicodrama terapêutico tem sido de grande valia na rematrização, liberação da espontaneidade e resolução do pro-blema, que tem se dado pela ocorrência da gravidez, pelo adiamento ou desistência do projeto do filho biológico, ou pela adoção.

A decisão da adoção, que ocorre mais frequentemente em casos de esterilidade, isto é, impossibilidade biológica de procriar, é bem trabalhada através de role-playing.
Vemos então as grandes chances do psicodrama na atenção aos problemas causados por infertilidade e esterilidade. Por isso lamentamos que poucos profissionais de saúde mental estejam atuando neste campo e que os médicos não indiquem um tratamento psicoterápico para a questão, preferindo partir direto para o recurso das tecnologias da reprodução em que a espontaneidade do casal é substituída por intervenções médicas caras, por vezes muito dolorosas e comportando riscos para a saúde, sempre tensionantes e de baixo percentual de sucesso.

Bibliografia

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